O que é o transtorno de uso e abuso de substâncias ?

19 agosto, 2021

Você sabía que existem quatro principais modelos de explicação para Dependência Química / Adicção / Transtorno de Uso e abuso de substâncias ?

 


Vários modelos tentam descrever a natureza essencial da dependência de drogas.  Os relatos dos jornais sobre “embriaguez” no século 19 e no início do século 20 contêm um tom editorial enfatizando uma moral pobre e eventualmente criticando as escolhas de estilo de vida seguidas pelos “bêbados”.  Essa visão foi denominada de modelo moral e, embora possa parecer desatualizada do ponto de vista científico moderno, ainda caracteriza uma atitude comum entre muitos indivíduos tradicionais e membros de diversos grupos étnicos.


Ja no ocidente o conceito ou modelo de dependência predominante é o modelo da doença.  A maioria dos defensores desse conceito especifica que a adicção é uma doença crônica e progressiva, sobre a qual o individuo não tem controle.  Esse modelo se originou em parte por uma pesquisa entre membros dos Alcoólicos Anônimos (AA) realizada por Jellinek (1960), um dos percursores dos estudos sobre o transtorno de uso e abuso de substâncias.  Ele observou uma progressão aparentemente inevitável assim como inúmeras tentativas fracassadas de parar de beber.  Essa filosofia é defendida atualmente pelos grupos de recuperação de AA e Narcóticos Anônimos (NA) e, em grande parte, pelo campo de tratamento em geral, alem de até mesmo permear as definições sobre o padrão de adicção desenvolvido no meio psiquiátrico e médico.  Existem muitas variações dentro da ampla rubrica do modelo de doença.  Esse modelo tem sido intensamente debatido: os pontos de vista variam de uma adesão feroz a uma oposição igualmente intensa, com visões intermediárias que consideram o conceito de doença um mito conveniente (Smith, Milkman e Sunderworth 1985).


Aqueles que veem o “vício” como outra manifestação de algo que deu errado com o sistema de personalidade aderem ao modelo caracterológico ou de predisposição da personalidade.  Cada escola de psicoterapia psicanalítica, neopsicanalítica e psicodinâmica tem sua “abordagem” específica sobre o tema (Frosch, 1985).  Tangencialmente, muitos dependentes químicos também são diagnosticados com transtornos de personalidade (anteriormente conhecidos como “transtornos de caráter”), como por exemplo transtornos de controle de impulsos e sociopatia.  Embora poucos pacientes sejam tratados por psicanálise ou psicoterapia psicanalítica, essa visão caracterológica foi uma influência formativa no modelo de "comunidade terapêutica" livre de drogas e dirigida muitas vezes por dependentes, que usa confronto duro e encontros em grupos durante momentos de privação de sono prolongada.  Pessoas que seguem o modelo de comunidade terapêutica concluem que os indivíduos em algo momento se retiraram para trás de uma “parede dupla” de encapsulamento, onde não cresceram, tornando tais técnicas de confronto necessárias.


O ultimo modelo aqui exposto trata-se da dependência química ou adicção vista como uma “carreira”, tendo uma série de etapas ou fases com características distintas.  Um padrão de carreira inclui seis fases (Clinard e Meier 2011; Waldorf 1983):


1. Experimentação ou iniciação

2. Escalonamento (uso crescente)

3. Manutenção ou "cuidar dos negócios" (uso otimista de drogas juntamente com desempenho de trabalho bem-sucedido)

4. Disfunção ou "passando por mudanças" (problemas com o uso constante e tentativas malsucedidas de parar)

5. Recuperação ou "sair da vida" (chegar a uma visão bem-sucedida sobre parar de fumar e receber tratamento com drogas)

6. Ex-viciado (saiu com sucesso)

 

Finalmente, depois de examinar inúmeras teorias que tentam listar e / ou prever os estágios do uso de álcool, tabaco e / ou drogas ilícitas, o seguinte conjunto de estágios parece ser o mais saliente em relação ao uso de drogas: 


  1. iniciação inicial e uso da droga, 
  2. continuação padronizada no uso da droga, 
  3. transição para o abuso de drogas, 
  4. tentativas de cessação (interromper o uso) 
  5. recaída (um retorno ao uso abusivo)  .


Isso significa que independente do modelo adotado, essas características encontram-se presentes, indicando que a progressão e caráter incurável no sentido de aprender a controlar tais substâncias parece raro e cada vez mais difícil considerando a prevalência de drogas cada vez mais alteradoras do sistema nervoso central assim como maior prevalência de transtornos de humor e personalidade (dual diagnosis). 


A psicologia transcultural / multicultural e a competência multicultural do psicólogo inclui entender a visão e crença presente no inicio do tratamento tanto por parte do paciente como da familia. Tal compreensão tende a aumentar significativamente a eficácia do tratamento, pois permite estabelecer um ponto de partida congruente com a realidade do paciente.

 

Avaliação Neuropsicológica para pacientes da doença da Adicção

26 dezembro, 2020

Um bom repertório de ferramentas é a chave! 


A doença da adicção tem como um dos principal desafios para o paciente a manutenção do processo de recuperação a médio-longo prazo, que estatisticamente mostra-se mais complicado do que a interrupçao temporária de consumo de drogas normalmente motivada por algum evento agudo. Manter-se limpo é um grande desafio. Embora recaídas podem ser consideradas “normais” no sentido estatísticamente provável, de nenhuma maneira fazer parte do processo de recuperação, mas sim da doença da adicção. 

A TBM Psychology acredita que a avaliação neuropsicologica com ênfase em adicção tem como principal objetivo agregar uma importante ferramenta para o adicto em recuperação: autoconhecimento sobre a relação entre o funcionamento orgânico do sistema nervoso central e o comportamento do adicto em diversas situações sociais e cotidianas. Essa ferramenta bem aplicada pode ajudar o paciente a perceber movimentos de auto sabotagem e gatilhos de pensamentos de frustração e inferioridade obsessivos a fim de motivar autonomia e escolha consciente baseado em ciência e não em “achismos da doença”. 

Como filosofou a.k.a uma pesquisadora bióloga marinha que se tornou pesquisadora do comportamento humano e psicóloga: 

“O perigo que ronda o homem da caverna ao se deparar com um tigre dente-de-sabre é o mesmo tendo ele
um graveto na mão ou uma tocha de 🔥, mas a ferramenta do fogo certamente vai lhe dar mais chance de sobrevivência”

 

Anxiety as a feeling rather than as actual survival mechanism.

5 outubro, 2020

I have recently received questioning about the nature of anxiety and why patients with acute generalised anxiety continuously have difficulty to achieve recession of symptoms. In recent research conducted by Dr. Sokal, member of the board of directors at the Academy of Cognitive Therapy and long time director at the Beck Institute in Pennsylvania, one of the main issues is that practitioners tend to try and minimize symptoms through focus on the actual anxiety, rather than on the fear of anxiety. Anxiety as a basic human feeling is a defense mechanism that ultimately permits survival of the species, as once it is turned on, our sympathetic system is activated and we are ready for quick immediate responses. It is said that without anxiety we would simply not survive. Of course it is obvious that in patients with anxiety disorder the system is activated based on dangers that mostly are not real but felt as if they were. This poses the need to first and foremost deal with the FEAR of anxiety, rather than the anxiety itself. Why am I afraid to feel anxious ? Does this fear mean that I am actually in danger ? Does fearing anxiety make me "anxious to feel anxious ?" Usually the answer is yes. Focusing firstly on the fear permits the patient to understand that anxiety as a feeling does not mean that one is actually in danger. To be able to sit with the feeling and understand that although it uncomfortable, in reality that's all it is, a feeling. Once the patient learns to feel uncomfortable without necessarily having to try and control said feeling, the paradox kicks in. Acceptance precedes change.

 

Adicção e Dependência Química são a mesma coisa ???

8 março, 2020

Adicção e Dependência Química são a mesma coisa ???


Sería o processo aditivo uma consequência ou causa ? A dependência química pode ser compartimentalizada como parte da adicção ? 


Pacientes me questionam quase que semanalmente e de forma filosófica quanto à origem da drogadição em seus processos individuais. Existem aqueles que desejam apenas tratar a questão biológica, buscando de todas as maneiras um forma de quase que “apagar” a compulsão física e obsessão mental de determinada substância através de uma pílula magica. Outros ja escolhem ignorar o comprometimento neurológico e tratar do assunto de forma quase que apenas holística. Não levam em conta que a natureza da adicção e/ou dependência química, (SIM…para o propósito do exposto uma questão meramente semântica), é multi-facetada, bio-psico-social, atravessada pelo tempo, e como Martin Baró diria, “…uma consciência alienada que as impede de compreender a si mesmo…” Existem diversos fatores comuns a adictos ou dependentes, da mesma forma que existem as especifidades (a própria historia, a carga genética, predisposições diversas...)


E o sistema de recompensa no sistema nervoso central ? A formação e desenvolvimento de nosso sistema límbico ocorre até os vinte e poucos anos…o uso de drogas compromete a eficiência desse sistema de recompensa. O adicto tende a se tornar incapaz de sentir satisfação e recompensa em coisas cotidianas, do funcionamento normal como sucesso no trabalho, esporte, relacionamentos saudáveis, ou qualquer outra coisa que possa fazer parte do status quo. A relação desse paciente com o prazer tende a ser distorcida além de outros motivos  por conta do comprometimento fisiológico. Não existem estudos conclusivos sobre o quanto que se recupera do sistema em relação a antes do uso de drogas, porém dados mostram que a abstinência prolongada do uso de drogas junto com hábitos saudáveis e um estilo de vida novo aumenta consideravelmente a probabilidade de sucesso - sucesso esse que é uma vida saudável, com desafios, mas com ferramentas de atravessa-los e encontrar satisfação em viver. Explicações como essa ajudam os pacientes muitas vezes a conseguirem aceitar melhor a dificuldade que encontram em viver o real, pois promove um entendimento cientifico sobre a consequência de seu uso. Quando sei como funciono, tendo a ter mais paciência comigo, me dando mais "graça" no dia a dia. 


Sim, adicção, ou dependência química, (de novo, questão apenas de semântica para o propósito desse comentário), deve ser tratada em sua totalidade. Saúde física e psíquica podem requerer intervenções de uma equipe multi disciplinar, que pode incluir dependendo de cada caso diversas areas da saúde. Avaliações Neuro-psicológicas podem ajudar a mapear as ferramentas necessárias no tratamento de cada adicto de forma individual. Ferramentas essas que incluem psicólogos, psiquiatras, fisioterapeutas, personal trainers, outros adictos em processo de recuperação, familia, novos hábitos, treinamento em habilidades sociais, entre outros. Quanto maior o entendimento de que ficar preso em polêmicas filosóficas (politicas de reduçao de danos vs abstinência, internação vs tratamento ambulatorial, se grupos de auto ajuda funcionam ou não...) menos se foca no paciente. Ferramentas bem empregadas podem ser eficientes.


Que não fiquemos preso em semântica.